quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Resenha #19: Nas Vísceras de Um Suicida - Marcelo Lemes




"Mas hoje acredito que, assim como tenho o livre-arbítrio para viver, rascunhar com indolência a claridade das manhãs, ou desenhar com exuberância as trevas noturnas, optar pelo sal ou pelo açúcar, gritar palavras sujas ou me conter em silêncio diplomático, também posso antecipar a morte e, principalmente, escolher a data, a hora, o local e a maneira que melhor me satisfaça o ego, ao ser o único responsável pelo meu destino." 



  Podemos caracterizar e definir a depressão atualmente, como: "O mal do século.". Sabemos que pode se passar 1001 motivos para uma pessoa querer tirar a própria vida, e, eu costumo dizer que o suicídio propriamente dito, está terminantemente ligado à depressão, por uma simples questão de lógica se você parar para pensar bem.
  Nas Vísceras de Um Suicida, é um livro em que procuramos esses 1001 motivos, que possam levar o protagnista da narrativa à cometer suicídio, porém, não achamos, ou, podemos misturar esses 1001 motivos e obter uma única resposta. Neste livro, ficamos à mercê do pensamento de um suicida, do qual não sabemos absolutamente nada (nome, endereço, telefone, cor da casa, emprego) a não ser uma coisa: o quão prolixo é, a sua vontade de morrer.

"Mas a vida é feita de parágrafos e páginas e capítulos surpreendentes e, por algum motivo, nós, mortais, jamais possuiremos o poder de pular uma palavra sem antes experimentá-las e vivê-la com integridade substancial. Surpresas nos esperam, o tempo todo. Se por acaso rasgarmos alguma lauda, por detestamos a história, a trama simplesmente termina. Não haverá segunda chance. O livro é retirado de nossas mãos.


  No decorrer da leitura, o protagonista vai revelando alguns motivos pelo qual ele quer acabar com a própria vida. Um casamento infeliz, uma perda dolorosa, más esperiências passadas, sapos engolidos.
  A trama toda, se passa em uma única noite, em que o protagonista está sozinho em casa (a esposa havia ido ao cinema com a filha) então ele teria muito tempo para morrer. O suicida pega uma taça, vinho e veneno, e se senta perante a mesa, daí, começamos a conhecer um pouco do nosso personagem principal.

"Mas todos, hora ou outra, acabam afundando a cabeça nessas águas para não morrerem asfixiado pela poluição em que o mundo se converteu."
 

  A todo momento, fica claro que o protagonista quer sim morrer, porém, sem sentir dor e ao mesmo tempo não quer pelo impacto que a sua morte vai causar, já que por exemplo, podemos citar que o suicida é uma pessoa muito bem sucedida, cristã, e vive se interrogrando do quê vai acontecer com ele após a morte.



  Eu acho que não saberia falar mais sem contar spoiler, já que se trata de uma história curta, de apenas 150 páginas. O que eu pude extrair para a minha vida, é que independentemente, do quão bem sucedido você for, do quão popular você for, do quão íntegro você for, do quão gentil você for, os pensamentos suicidas podem bater na sua porta à qualquer hora e nesta leitura, eu pude chegar a conclusão do quão dolorido e lindo ao mesmo tempo, é, o pensamento suicida.

"Vejo uma grinalda de hipocrisia na humanidade. É um absurdo sem tamanho investir tanto dinheiro em objetos de luxo. Futilidade exagerada. Acessórios insignificantes são feitos de ouro. Ouro puro em torneiras de banheiro. Banheiro. Onde depositamos nossa gloriosa merda. Onde lavamos a sujeira do corpo fétido. Onde cuspimos e escarramos o pior de nós mesmos."


  O trabalho editorial do livro, como sempre, simplesmente INCRÍVEL. Ótimo trabalho Editora Penalux! As folhas são muito grossas, dando um conforto a mais durante a leitura. Sem contar no detalhe no cantinho da folha da taça com o vinho. Simplesmente amei! Aposto que assim como eu, esse livro vai te deixar nas vísceras de um suicida.



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